quarta-feira, abril 06, 2011

Elogio à Criatividade


Discutia eu com o Saraiva sobre qual deveria de ser o primeiro artigo deste blog alienado e chegámos à conclusão que para já cada um deveria escrever sobre o que lhe apetecesse.

Admito que ainda não tinha escrito nada aquando do surgimento do primeiro artigo dele. Pensei eu para mim: "Hum...não contava com um artigo tão criativo, pensei que fossemos começar com algo mais objectivo. Hum...um momento...não seria má ideia...Que tal falarmos de criatividade?" Bora!

Segundo a fonte de conhecimento universal - Wikipédia - o conceito criatividade tem diversos significados, sendo este o meu preferido: "Criatividade representa a emergência de algo único e original" em vez de, por exemplo: "Criatividade é o processo que resulta em um produto novo, que é aceite como útil, e/ou satisfatório por um número significativo de pessoas em algum ponto no tempo". O segundo, provavelmente define melhor esse conceito em termos técnicos, mas julgo que o primeiro é mais subjectivo e deixa mais espaço à imaginação.

Na minha perspectiva, a criatividade pode manifestar-se de toda e qualquer forma, em todo o ofício em que nos seja permitido exercer o livre arbítrio. A criatividade acaba por ser o maior instrumento intelectual que todo o ser vivo possui. Está integralmente ligado à evolução do mesmo, quer esta seja má ou boa. Ser criativo significa arriscar, sair da zona de conforto. Significa dar uma contribuição pessoal ao mundo, pintá-lo com cores diferentes ou dar uma nova razão para querermos que o Sol nasça no dia seguinte. Serve para isso mesmo, quebrar o marasmo da nossa existência. Infelizmente a utilidade desta, estará directamente ligada à boa ou má natureza do seu criador.

Por norma associa-se criatividade a correntes artísticas como pintura, música, cinema ou simplesmente à escrita de um texto. Eu digo para ir-se mais além com este conceito. Porque não associar-se a critividade à fórmula matemática que Leibniz inventou ou simplesmente o novo caminho que tu descobriste ontem para te levar ao trabalho ou ainda à nova posição sexual que experimentaste com o(a) parceiro(a). Todos nós temos criatividade, uns mais que outros: é inegável; porém, ainda existem muitos com medo de a por em prática.

O apelo que faço aos leitores, acaba por ir de encontro com o post do caro co-autor do blog, ou seja, um apelo à tentativa de quebrar a rotina com pequenos ou grandes lampejos de criatividade, o que certamente vai dar mais significado à vossa existência neste maravilhoso planeta no qual muitos estão a ser a criativos no que toca à sua destruição... mas isso será outro tema para breve.

Sociedade Alienada





Acordaste, mais um dia te espera.

Ainda ensonado relembras o sonho que ainda agora vivias, mas que já parece tão distante. 
Colocas os pés no chão, a tentar encontrar os chinelos...o contacto com tapete fofo faz-te pensar como é bom acordar assim. 

Cantarolas aquela música enquanto tomas banho; vestes-te, tomas o pequeno-almoço...

Sais para trabalhar, hoje vais de comboio - é um dia diferente, como uma homenagem ao ambiente: ontem viste aquele programa televisivo que alertava para as elevadas emissões de CO2 nas cidades e decidiste ir de comboio.

As pessoas vão caladas, atoladas, cada uma com a sua forma e feitio, mas todas vão ao mesmo...todas vão trabalhar ou estudar. Nesta altura do ano são poucos os que estão de férias e vão até à praia naquele comboio.

O trabalho não é fácil. Está tudo muito difícil por lá...mas tu tens poucas responsabilidades, afinal, o teu trabalho é bastante patético, simples e quase inútil. Mas dá-te o pão que comes todos os dias e o abrigo que te protege da intempérie.

No regresso a casa, vais procurar o carro - já nem te lembravas que tinhas vindo de comboio - "Que porcaria!..."

Em casa és invadido pela publicidade no correio, na TV e ouves aquelas notícias da tal guerra que começou lá naquele país onde eles são todos malucos. "Coitados!" - pensas tu...e mudas de canal. "Olha, está a dar aquele programa." - e que te faz esquecer o teu sonho de hoje.

Que te faz esquecer o mendigo que viste no comboio, o sem-abrigo que dorme na escadaria do teu prédio e aquela guerra chata que eles se fartam de falar na televisão.

Esqueces essas coisas; nem te questionas porque elas acontecem...

Esqueces essas coisas, porque afinal elas até são normais - sempre estiveram ali.

Já nem te lembras porque foste trabalhar de manhã, aliás, nem te lembras porque trabalhas sequer...assim de repente pensas que seja pelo dinheiro, para pagares as tuas coisas. Mas não fazes caso...

...e voltas à tua sala, àquele programa de TV divertido, que te poupa dores de cabeça e não te obriga a pensar muito - afinal, é o fim de um dia de trabalho.

E aquele sonho?

...lembro-me vagamente das flores e do campo, de correr com ela de braço dado...mas nada mais. Já foi à muito tempo, é irrelevante. 

"Never again will you be capable of ordinary human feeling. Everything will be dead inside you. Never again will you be capable of love, or friendship, or joy of living, or laughter, or curiosity, or courage, or integrity. You will be hollow. We shall squeeze you empty and then we shall fill you with ourselves." - George Orwell in Nineteen Eighty-Four